quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

"O que foi feito da vida"...


 
Abre-se a cortina de chita, Elis desce a escada, equilibrando-se, e pisa no picadeiro... "Acho que agora tá, quase no ponto tá ..." 
E como a vida de Elis sempre esteve marcada por profecia ou prefiguração, depois das lágrimas avassaladoras de Atrás da Porta, é hora de um recado aos filhos: "Quando colherem os frutos, façam a festa por mim..."

 
Na segunda parte do show da série Grandes Nomes, é quando Elis convida César Mariano ao palco. (Homen)ageado pela presença marcante em sua vida, o músico se rende às  brincadeiras da artista, que sugere "Modinha"(Tom Jobim), depois inventa um blue em Rebento (Gil); Aquarela do Brasil (Ary Barroso) e O que foi De Vera (Milton). Os bailarinos usam cores vivas, brasileiras; entoando um canto tribal. No final da apresentação ela arrasta todo mundo com Redescobrir (Gonzaguinha). Na inebriada  plateia  estavam,  à vista, os atores Felipe Camargo e Maria Cláudia. Por fim, no grande círculo que se formou com a "brincadeira de roda", Elis abraça o diretor Daniel Filho, que veste a   polêmica camiseta proibida, com o nome de Elis Regina, ao invés de Ordem e Progresso: slogan pra enfurecer até o censor mais complacente. O show é encerrado com um trecho da antológica Fascinação.



Imagens: DVD Trama, serie Grandes Nomes

domingo, 28 de novembro de 2010

Aquele bolero

Cauby estava cantando: "Conceição eu me lembro muito bem...", música que não pode deixar de ser lembrada em seus shows. Descia a escada ainda cantarolando a canção. Alguém disse-lhe, baixinho, qualquer coisa, e ele veio em minha direção, já no corredor que o levaria a ver a lua deitada na Lagoa. E eu não podia perder tempo com galanteios de tiete, falei logo de sua gravação com Elis, no disco Essa Mulher / 1979.  Ele estava onomatopaico, pôs o braço no meu ombro: "hum, um, um, um... lará, laiá, laiá... turu, ru, ru, ru... liri, ri, ri,, ri, ri..." E  lembrou-se da letra do bolero  amargo, envenenado, pagã... Discretamente começamos a cantar/ol(h)ar: "Você me deixou como o fim da manhã / E em mim começou essa angústia, esse afã / Você me plantou a paixão imortal e mal sã / Que  se enraizou e será meu maldito final amanhã... / É a seta do arco da noite /Sangrando-me agora..." Elis já tinha bateado algumas pedras no garimpo do pensamento, e muitas desceram na correnteza da seleção; sobrou a voz preciosa de Cauby, prontamente cedido por sua gravadora. O cantor entrou na Van, nevoada pelo "arco da madrugada",  e eu pisava na grama pantanosa da borda  da Lagoa, com vontade de chorar, quase louco, já de manhã.

imagem: elisreginapimentinha.zip.net

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Efígie


Elis voltou a Porto Alegre:
efígie no meio da praça
com um sorriso de cobre.




quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Bobo da corte

Elifas Andreatto
O que dissera, hoje, por verdade, amanhã seria contradição. Arrumava os compartimentos da casa, mas desconsertava-se na vida, disposta a não olhar para estragos. Havia um anjo do mal que a induzia a vingar-se, a não dá o braço a torcer, a contracenar com o inimigo. Um anjo bondoso, em dia ameno, dava-lhe o gosto pela beleza e a liberdade de sair por aí. E, à noite, Deus arrumava o palco e emprestava-lhe a voz para que ela reinasse, soberana. E dizia-se injustiçada, guardava ressentimento de épocas difíceis e competitivas, mas atropelava tudo com a força visceral do seu canto: parecia carregar o  peso de uma grande misssão. "Divido tudo, mas o palco, esse eu não divido com ninguém", assegurava a artista. 
Podia-se até dizer que ela se defendia com palavras ríspidas e imediatas, esbanjando munições cotidianas, mas seu projeto musical ia além das trivialidades, dando origem a uma artista comprometida com a humanidade, daí a necessidade de prosseguir contestadora e valente. O palco era o único lugar seguro, onde ela armava a lona do circo e entrava no picadeiro: o bobo da corte não entrega os guizos...
Tinha um comportamento arrepiado, mas abria brechas à ternura; revelava-se fortemente engajada à realidade política brasileira do seu tempo; no entanto, sua obra é um legado de relevante contribuição cultural. Era mutante, raro rebento de vida: desabrochava-se para não ser casulo.
Ninguém ousava detê-la na velocidade voraz de imprimir sua história. Acreditou em seu talento e foi à luta: cantava em ritmo de atropelar. E assim seguiu indomável, aperfeiçoou o canto para  ser sua expressão verossímil.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Pra dizer adeus


Pra dizer Adeus, canção gravada no início da carreira de Elis, prefigura o que vimos em Trem azul, quando ela cantou Se eu quiser falar com Deus. A primeira canção versava sob a perspectiva do amor;  a segunda, não necessariamente, havia um traço de desprendimento à existencialidade,  acentuado pelo texto recitado na abertura do show; em meio  a aplausos incessantes de seus seguidores, externava a possibilidade de ir-se, como se avistasse um poço de água mais doce, nas bordas de um planeta melhor.  As palavras proféticas e viscerais que cantava ou dizia, vestiam-se de uma dramaticidade transcendente: queria  a luz apagada, gritava pela solidão,  rastejava-se, desnudava corpo e alma: "Eu tenho que dizer adeus, dar as costas, caminhar..." Os braços verticais são hélices ritmadas que riscam o ar, sem a voracidade de cata-vento, desencadeada em outras pelejas e sedes. "Tenho que subir aos céus sem cordas pra segurar..."
Esse trem que a levou não é aquele que  atropela  borboletas e barbeia girassóis na via-férrea: o  embuá solitário caminha triste, arrasta-se pelas veredas das serras; viandante de rosto sedento, mas nunca avista uma nascente. Mesmo entoando ladainha segue com andar de condenado, carregando seu cansaço, escravo de um fazer que não se finda...  E  chega o trem alado e a arrebata, deixando "um rastro espelhado e brilhante"; vai-se  inaugurando outras trilhas siderais, e ancora na estação azul, exílio de uma nova estrela.  

O primeiro show, no Beco das Garrafas-RJ, na noite em que ela insistia em ficar: "Um dia tudo isso vai ser meu".

Trem Azul, o último show

Imagens: Revista Manchete/1982

sábado, 11 de setembro de 2010

 O Primeiro Jornal*



Quero cantar pra você
Segunda-feira de manhã
Pelo seu rádio de pilha tão docemente
E te ajudar a encarar esse dia mais facilmente
Quero juntar minha voz matinal
Aos restos dos sons noturnos
E aos cheiros domingueiros que ainda boiam
Na casa e em você
Para que junto com o café e o pão se dê
O milagre de ouvir latir o coração
Ou quem sabe algum projeto, uma lembrança
Uma saudade à toa
Venha nascendo com o dia numa boa
E estar com você na primeira brasa do cigarro
No primeiro jorro da torneira
Nos primeiros aprontos de um guerreiro de manhã
Para que saias com alguma alegria bem normal
Que dure pelo menos até você comprar e ler
O primeiro jornal.


Álbum Saudade do Brasil/1980

* Sueli Costa
imagem: caros ouvintes.org.br






quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Esse tal João
 O crescimento da obra  de Elis Regina  é visível, a partir das composições de João Bosco/Aldir Blanc, desde o início dos anos 70, o que faz a cantora desvencilhar-se do repertório que conduziu desde O Fino da Bossa, para enveredar na crítica sardônica, a exemplo de O Mestre-sala dos Mares e Caça à Raposa, gravadas no LP Elis/1974.  Depois Elis teve um encontro inexperado com o cearense Antonio Carlos Belchior, que a procurou com uma letra de música, e artista sentiu a necessidade de se renovar; como enfatiza Walter Galvão: "o projeto filosófico incorporou-se a sua obra", dando uma nova proposta ao seu trabalho: "Ele bateu em minha porta com a letra de Como Nossos Pais... É o filósofo do nosso tempo", declarou. E até hoje é a mais tocada nas rádios; um texto que não se dissolve. A música O Bêbado e a Equilibrista, sucesso absoluto em Essa Mulher/1979, novamente, João Bosco/Aldir Blanc impulsionam outro momento importante na carreira de Elis,num período assustador da história política brasileira, a ditadura militar. "Elis era o estômago do país inteiro", disse Henfil.  O  cartunista teceu intensa crítica, quando ela cantou nas Olimpíadas do Exército, a enterrando na charge do Cemitério dos Mortos Vivos, causando indignação à cantora, que sempre manteve uma postura política confiável. Como se fosse acerto de contas, retratou-se: Betinho, aquele invocado na canção, estava de volta pela brecha da abertura política; eles reataram a amizade e puderam pensar uma porção de coisas juntos...  Mas os anos se encurtaram, e Elis ainda gravou dois discos em1980: Elis, com composições de Guilherme Arantes e os Borges, mais o álbum duplo, com a íntegra do show Saudade do Brasil;  onde ela canta o Brasil  com suas cores e que dá saudade...  O repertório para o novo disco de 1982 estava pronto; gravaria Nos Bailes da Vida, de Milton Nascimento, por quem ela tinha verdadeira admiração: "Se Deus cantasse, cantaria com a voz de Milton", acrescentou. É um pedaço de chão do Brasil que se desintegrou... Bye, bye, bye Brasil!

domingo, 8 de agosto de 2010


Construção
Fotografias Célia Marisa; texto Salma Tannus. Livraria Kosmos Editora,SP/1985

a Clara Lenira, Sânia e Lúcia Barbosa

A trajetória musical de Elis Regina foi como cavar alicerce e levantar paredes: tijolos, pedras, mosaicos; que vão sendo cimentados, encaliçados  com suor e lágrima. Uma vida  maranhada como se fosse construção: ripas, caibros, vigas, pregos batidos e o esqueleto de ferro vestido pela carne de concreto... E o resultado é a solidez da invenção; essa torre erguida à posteridade.
Cantou às gargalhadas,  disse tudo no Jogo (d)a Verdade; bebeu vinho  e chorou como se fosse náufrago; virou o disco como  se ouvisse música, bateu a porta e fugiu pela vidraça do edifício: "E flutuou no ar como se fosse um pássaro..." 
  

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Elis em Paris
htt/j.sarsano.com.br / Boulevard de Capucines
Elis Regina deu de cara com a exigência da plateia francesa. E O Bossa Jazz Trio estava lá, na estreia de sua temporada no Teatro Olympia de Paris. Elis em Paris, o compacto, cresceu com A noite do Meu Bem (D. Duran), e a canção ficou ainda mais bela com sua interpretação traduzida: La Nuit de M'onamour. A imagem acima, vem da apresentação de Elis na TV Estatal francesa. Tem mais samba: o grupo já tinha acompanhado a cantora nos discos Dois na Bossa 2, com Jair Rodrigues, e Elis /1966. O ex-baterista José Roberto Sarsano fala dessa junção e nos apresenta o fortalecimento artístico de Elis Regina nos palcos franceses. Lançou o livro Boulevard des Capucines, e tem um trabalho bastante enriquecedor em  blog do mesmo tema, onde o leitor tem acesso a vídeos, depoimentos, ensaios, imagens e palestras. 
Em 1968, Elis apresentou-se duas vezes no Teatro Olympia, respirando o glamour parisiense: palco de celebridades como Yves Montand, Charles Aznavour e a maior cantora da França, Edith Piaf. 

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Elis em retrospectiva

Elis Regina Carvalho Costa, série Grandes Nomes, TV Globo
1.
Eu estava no Recife, no bairro de Casa Forte: essa foi a imagem mais destacada no programa Retrospetiva 1982. No primeiro dia do ano de 1983, o disco Trem Azul me foi apresentado por Mariana Arraes, filha do ex-governador Miguel Arraes (in memoriam): era uma reunião de poucos amigos, rememorando  a noite de revéillon. Todos queriam que eu ouvisse, repetidas vezes.  "Agora o braço não é mais o braço erguido num grito de gol; agora o braço é um  traço, uma linha, um rastro espelhado e brilhante... Como uma estrela. Agora eu sou uma estrela..." É, os braços de Hélices não pedem mais vento!
2.
Quando foi lançado o DVD Elis Regina Carvalho Costa, com a íntegra do show exibido pela TV Globo / 1980, houve uma intensa procura. Indiquei-o a muitos que jamais conheciam aquele trabalho, antes  lançado em fita VHS, também pela Globo, e mais dois vídeos apresentados por Marília Gabriela e Irene Ravache. Houve grandes abalos no ano de 1982, abrindo crateras na memória: as mortes de Elis Regina e Adoniram Barbosa, poeta do Bexiga, amigo e parceiro da cantora; além de Márcia de Windsor. No âmbito internacional, ícones do cinema, como a atriz-princesa Grace Kelly e Romy Schineider... O show, dirigido por Daniel Filho,  ficou marcado pela interpretação em Atrás da Porta, de Chico Buarque: "Quando Olhaste bem nos olhos meus / E o teu olhar era de Adeus / Juro que não acreditei..." Gravada em 1972, a música não maldizia o amor, quando César e Elis  juntaram piano, voz, vidas. Mas, no palco-picaceiro,  por ironia do destino, Atrás da Porta era um recado dito ao pé da letra, arrancado de si; desmoronando parte do que fora feito em quase uma década. "E me vingar a qualquer preço / Te adorando pelo avesso / P'ra mostrar que inda sou tua..." As marcas de César Mariano estão muito bem impressas à carreira de Elis, que homenageia o músico convidando-o à segunda parte do show.  
3.
Elis pensa nos amigos de pandeiro, batucada de velhos carnavais. Escuta o canto dos riachos que descem a serra da Cantareira, inundando as hortas: os filhos cruzam a correnteza e colhem os frutos da canção Aos Nossos Filhos, de Ivan Lins. Qualquer disco relançado vende muito, porque Elis continua cantando melhor.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

              Elis in Montreux                                     

Imagem: disco Elis em Montreux


Elis in Montreux, o disco, não teria amornado a fervura da carreira de Elis Regina, se tivesse seguido a normalidade do projeto musical que se pensava, à época. Mas houve uma severa intervenção da cantora: insatisfeita com sua performance na noite suíça/brasileira, decidiu que  o show fosse um gélido acontecimento, ausentando a possibilidade de transformá-lo em disco. André Midani arquivou os registros. No entanto, a fatalidade de sua morte se mistura à revelia, e por ser póstumo, gera um justo motivo e nenhum remorso... Diante disso a publicação da obra aconteceu, e ainda  se ouvem as ovações. Elis  temia em não agradar o mundo afora, mas o que foi lançado em 1982,  é a prova que contraria essa decisão.


  

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Elis, Elis, Elis!
                                      DVD Trama, série Grandes Nomes


Elis Regina Carvalho Costa, nasceu em Porto Alegre (RS).  Nesse início de ano ouve-se falar mais dessa mulher, que  em 19/01/1982, subitamente, nos deixou.
A obra da artista, no entanto, é seu maior legado e parâmetro para muitas discussões. Elis não era uma cantora tipicamente comercial, aquela que canta qualquer coisa... Comprometida com as questões sociais do seu país, e consequentemente com a universalidade da problemática das pessoas, o repertório tinha que ser objeto de luta.  Contudo, seu trabalho, sendo aceito pela qualidade, que se venda muito, até porquê  faz-se com todo produto fabricado. Melhor é tê-la como instrumento de pesquisa, distanciando-a do saudosismo que a envolve, causado pela comoção nacional, que talvez, gradativamente, a consuma.  No entanto, os registros póstumos acrescentados à obra da cantora, têm que ser encarados como  objeto cultural, muito pouco de tietagem. Esses engajamentos e sua independência musical  são componentes, que somados à voz marcante, fascina a todos: “Amo a música, acredito que nem tudo está perdido, creio no ser humano e na renovação do planeta”, declarou.
Essa Mulher, o disco, completou 30 anos em julho de 2009, que além da música "O Bêbado e a Equilibrista" (João Bosco e Aldir Blanc), batendo de frente com o momento político vivido em 1979; valorizou Cartola, apresentou Tunai e Sérgio Natureza e o histórico dueto de Elis & Cauby Peixoto: “Estava indo a uma entrevista, quando ele cruzou em minha frente: é esse…”, disse ao Pasquim (1979). O “Hino da Anistia” reivindicava a volta do irmão do Henfil  e a morte do jornalista Vladimir Herzog, contextualizando as mazelas da repressão militar. Além do luto que as vestia, mães-Marias tinham também corações torturados. Ouviam-se os gritos roucos ecoando dos porões;  sangue escorria de fecundas idéias mutiladas.
Elis, em 1979, participou do 13º Festival de Jazz de Montreux: luzes cruzam a “Noite Brasileira” e as ovações abalam o Cassino de Montreux. O Bruxo do jazz ordena ao piano, mas não intimida a Pimentinha. O show passara por algumas oscilações vocais, mas ela volta ao palco menos introspectiva, depois de “Mancada”, “Faca Amolada” e “Rebento(u)”. Despira-se do longo vermelho, busto roxo-bispo e da orquídea azul-lilás do figurino. Vozes a chamam muitas vezes: “Elis, Elis, Elis!..."  Essas e outras imposições a fazem ressurgir em cena. Os olhos nos olhos travam duelo na noite: ela atende às notas complicadíssimas de Hermeto e mantém-se indomável, invencível, cantando as canções como se cada verso se avessasse. A plateia, insistentemente, não se cansa... E, aos poucos, desvencilha-se dos aplausos que pesadamente a veste.
Um samba no Bexiga
 
Elis convidou Adoniran para um samba no Bexiga. Conversando no Bar, eles tomam cerveja, e juntos cantam Iracema e Saudosa Maloca. O compositor rememorou outros sucessos já vistos no  Fino da Bossa: "Um dia nós fumo um samba no Bexiga, na rua Major, na casa do Nicolá. À meia noite o'clock teve a baita de uma briga: era só pizza que avoava...", Adoniram faz todo mundo rir; depois sai com  Elis, pelas ruas do bairro, até a chegada simulada à porta  de uma discoteca, onde Rita Lee canta "Jardins da Babilônia"; enquanto que o cantor se recusa a entrar, averso ao ritmo: "Não entro nem com caaa...misa de força". As imagens são do DVD Doce Pimenta, Trama.
Elis: a caminho do sol



Elis Regina Carvalho Costa, nasceu em Porto alegre (RS). Começou a cantar em programa infantil da Rádio Farroupilha, até se projetar para o Brasil. Há 28 anos atrás, em 19 de janeiro de 1982, a notícia de sua morte, ocorrida em São Paulo, paralisou o país em todos os aspectos.
Os brinquedos e demais proezas infantis. Menina coberta de dengos maternais: trajes variados, cabelos adornados, o piano (cor-de-rosa) no quintal. O cotidiano soprou musicalidade à vida de Elis: aplausos dominicais levaram-na a enfrentar uma plateia pouco exigente, diversão em programa de auditório, sem maiores pretensões. Adolescendo o canto a voz tornou-se promissora, mas estudar era prioridade, exigência, impasse: o vermelho não podia se acender no boletim nem a aspiração musical podia apagar-se em seus planos.
O rádio espalhava grandes vozes nacionais e sedutores boleros latinos. Ângela Maria influenciou-a diretamente e seu canto começou a despontar vinculado a palcos locais, sinalizando, definindo a cantora que parte. E desponta o primeiro disco adubando esse desabrochar de carreira. “Vida de Bailarina” (1954), gravada pela Sapoti, é relançada pela “Pimenta” agridoce, no LP Elis (1972).
Fazeres escolares engavetados, curso sem conclusão, vestidos na valise, estrada de setas: avista “os dedos de Deus”. Em Copacabana deu de cara com as feras da noite, desafiou os valentes, desbravando o Rio. Um dia pensou em voltar à vida quieta de Porto Alegre, enterrando o projeto musical, exumando a escolaridade. Mas encorajada pelo jornalista Renato Sérgio, levou a sério os ensaios e se fortaleceu no Beco – pôs-se a cantar “num bar em troca de pão” –, partindo para apresentações mais consistentes, contrariando as expectativas dos produtores bossanovistas. “Eu tinha os olhos de espanto e o coração aberto demais” – disse mais tarde sobre sua inclusão carioca.
A Record presenteou-a com “O Fino da Bossa”, que fora seu primeiro e grande momento na televisão, mas o sucesso paralelo da Jovem Guarda, ofuscou o brilho do programa. A convite da emissora, Bôscoli reaparece na vida da cantora: olhares fuzilantes, testemunha indesejável, ironia do destino. Mas ele sabia iscar anzol, fisgar mulheres e mansos olhares acomodaram-se à meia luz, sob o romantismo do vinho. O piano e as conversas eram uma só musicalidade e o amor pareceu pacificar os inimigos.
E, da mansão “marroquina”, a visão paradisíaca do mar azul-turquesa, cravejado de ilhotas: o apogeu depois das agruras. O produtor adicionou traços urbanizados à cantora, – entendia de moda, estrelato – , mas ela continuou assoviando,  a sorrir, discos (voadores) arremessados sobre à Niemmyer: "Quaquaraquaquá” em seguida. Mas as trivialidades somam-se às severidades, separando-os. Elis não era fácil porque desafiava o difícil, literalmente.
A casa da Cantareira era o pedestal da paz: despontar de luas, ar sem diesel, inventos caseiros. “Quero a floresta em lugar da cidade (...)”. Tocando as coisas simples instalava-se no cotidiano rural e pacificava-se, depois da explosão de Falso Brilhante.
O pianista e arranjador César Mariano abrilhantou a carreira da artista por toda a década de 70, na eclosão da modernidade musical. Além da montagem de Trem Azul sem o pianista, tinha também que conectar os trilhos da vida, mas encantada com a invenção de cantar, en(cantou)-se: “Cantar era buscar o caminho que vai dar no sol...” Elis faz arrastão em outras correntezas, no giro de luas e cometas, no mar sem fim das galáxias, onde mergulham as estrelas.
Elis e Adoniran



Ele estava ansioso: aguardava Elis para uma conversa sobre os acertos finais da interpretação de Saudosa Maloca. "Ele sempre dá um jeito de escapar", disse Elis. E para felicidade do compositor, que de vez em quando se queixava da demora da cantora, ai está o momento exato que ela apareceu, em meio aos acertos finais da estreia do show Transversal Tempo.


http://elisreginapimentinha.zip.net 
Falso Brilhante



Elis, em cena, no show Falso Brilhante, exibido no Teatro Bandeirantes-SP, 1976. Um mega espetáculo: superlotado, durante os 14 meses em cartaz; modelo somente visto na Broadway. E ela estava ali, no apogeu, depois de  galgar até isso acontecer.