Cauby estava cantando: "Conceição eu me lembro muito bem...", música que não pode deixar de ser lembrada em seus shows. Descia a escada ainda cantarolando a canção. Alguém disse-lhe, baixinho, qualquer coisa, e ele veio em minha direção, já no corredor que o levaria a ver a lua deitada na Lagoa. E eu não podia perder tempo com galanteios de tiete, falei logo de sua gravação com Elis, no disco Essa Mulher / 1979. Ele estava onomatopaico, pôs o braço no meu ombro: "hum, um, um, um... lará, laiá, laiá... turu, ru, ru, ru... liri, ri, ri,, ri, ri..." E lembrou-se da letra do bolero amargo, envenenado, pagã... Discretamente começamos a cantar/ol(h)ar: "Você me deixou como o fim da manhã / E em mim começou essa angústia, esse afã / Você me plantou a paixão imortal e mal sã / Que se enraizou e será meu maldito final amanhã... / É a seta do arco da noite /Sangrando-me agora..." Elis já tinha bateado algumas pedras no garimpo do pensamento, e muitas desceram na correnteza da seleção; sobrou a voz preciosa de Cauby, prontamente cedido por sua gravadora. O cantor entrou na Van, nevoada pelo "arco da madrugada", e eu pisava na grama pantanosa da borda da Lagoa, com vontade de chorar, quase louco, já de manhã.
domingo, 28 de novembro de 2010
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Bobo da corte
Elifas Andreatto
O que dissera, hoje, por verdade, amanhã seria contradição. Arrumava os compartimentos da casa, mas desconsertava-se na vida, disposta a não olhar para estragos. Havia um anjo do mal que a induzia a vingar-se, a não dá o braço a torcer, a contracenar com o inimigo. Um anjo bondoso, em dia ameno, dava-lhe o gosto pela beleza e a liberdade de sair por aí. E, à noite, Deus arrumava o palco e emprestava-lhe a voz para que ela reinasse, soberana. E dizia-se injustiçada, guardava ressentimento de épocas difíceis e competitivas, mas atropelava tudo com a força visceral do seu canto: parecia carregar o peso de uma grande misssão. "Divido tudo, mas o palco, esse eu não divido com ninguém", assegurava a artista.
Podia-se até dizer que ela se defendia com palavras ríspidas e imediatas, esbanjando munições cotidianas, mas seu projeto musical ia além das trivialidades, dando origem a uma artista comprometida com a humanidade, daí a necessidade de prosseguir contestadora e valente. O palco era o único lugar seguro, onde ela armava a lona do circo e entrava no picadeiro: o bobo da corte não entrega os guizos...
Tinha um comportamento arrepiado, mas abria brechas à ternura; revelava-se fortemente engajada à realidade política brasileira do seu tempo; no entanto, sua obra é um legado de relevante contribuição cultural. Era mutante, raro rebento de vida: desabrochava-se para não ser casulo.
Ninguém ousava detê-la na velocidade voraz de imprimir sua história. Acreditou em seu talento e foi à luta: cantava em ritmo de atropelar. E assim seguiu indomável, aperfeiçoou o canto para ser sua expressão verossímil.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Pra dizer adeus
Pra dizer Adeus, canção gravada no início da carreira de Elis, prefigura o que vimos em Trem azul, quando ela cantou Se eu quiser falar com Deus. A primeira canção versava sob a perspectiva do amor; a segunda, não necessariamente, havia um traço de desprendimento à existencialidade, acentuado pelo texto recitado na abertura do show; em meio a aplausos incessantes de seus seguidores, externava a possibilidade de ir-se, como se avistasse um poço de água mais doce, nas bordas de um planeta melhor. As palavras proféticas e viscerais que cantava ou dizia, vestiam-se de uma dramaticidade transcendente: queria a luz apagada, gritava pela solidão, rastejava-se, desnudava corpo e alma: "Eu tenho que dizer adeus, dar as costas, caminhar..." Os braços verticais são hélices ritmadas que riscam o ar, sem a voracidade de cata-vento, desencadeada em outras pelejas e sedes. "Tenho que subir aos céus sem cordas pra segurar..."
Esse trem que a levou não é aquele que atropela borboletas e barbeia girassóis na via-férrea: o embuá solitário caminha triste, arrasta-se pelas veredas das serras; viandante de rosto sedento, mas nunca avista uma nascente. Mesmo entoando ladainha segue com andar de condenado, carregando seu cansaço, escravo de um fazer que não se finda... E chega o trem alado e a arrebata, deixando "um rastro espelhado e brilhante"; vai-se inaugurando outras trilhas siderais, e ancora na estação azul, exílio de uma nova estrela.
O primeiro show, no Beco das Garrafas-RJ, na noite em que ela insistia em ficar: "Um dia tudo isso vai ser meu".
Trem Azul, o último show
sábado, 11 de setembro de 2010
O Primeiro Jornal*
Quero cantar pra você
Segunda-feira de manhã
Pelo seu rádio de pilha tão docemente
E te ajudar a encarar esse dia mais facilmente
Quero juntar minha voz matinal
Aos restos dos sons noturnos
E aos cheiros domingueiros que ainda boiam
Na casa e em você
Para que junto com o café e o pão se dê
O milagre de ouvir latir o coração
Ou quem sabe algum projeto, uma lembrança
Uma saudade à toa
Venha nascendo com o dia numa boa
E estar com você na primeira brasa do cigarro
No primeiro jorro da torneira
Nos primeiros aprontos de um guerreiro de manhã
Para que saias com alguma alegria bem normal
Que dure pelo menos até você comprar e ler
O primeiro jornal.
Álbum Saudade do Brasil/1980
Segunda-feira de manhã
Pelo seu rádio de pilha tão docemente
E te ajudar a encarar esse dia mais facilmente
Quero juntar minha voz matinal
Aos restos dos sons noturnos
E aos cheiros domingueiros que ainda boiam
Na casa e em você
Para que junto com o café e o pão se dê
O milagre de ouvir latir o coração
Ou quem sabe algum projeto, uma lembrança
Uma saudade à toa
Venha nascendo com o dia numa boa
E estar com você na primeira brasa do cigarro
No primeiro jorro da torneira
Nos primeiros aprontos de um guerreiro de manhã
Para que saias com alguma alegria bem normal
Que dure pelo menos até você comprar e ler
O primeiro jornal.
Álbum Saudade do Brasil/1980
* Sueli Costa
imagem: caros ouvintes.org.br
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Esse tal João
O crescimento da obra de Elis Regina é visível, a partir das composições de João Bosco/Aldir Blanc, desde o início dos anos 70, o que faz a cantora desvencilhar-se do repertório que conduziu desde O Fino da Bossa, para enveredar na crítica sardônica, a exemplo de O Mestre-sala dos Mares e Caça à Raposa, gravadas no LP Elis/1974. Depois Elis teve um encontro inesperado com o cearense Antonio Carlos Belchior, que a procurou com uma letra de música, e a artista sentiu a necessidade de se renovar; como enfatiza o jornalista Walter Galvão: "o projeto filosófico incorporou-se a sua obra", dando uma nova proposta ao seu trabalho: "Ele é o filósofo do nosso tempo", declarou a cantora. E até hoje é a mais tocada nas rádios; um texto que não se dissolve. A música O Bêbado e a Equilibrista, sucesso absoluto em Essa Mulher/1979, novamente, João Bosco/Aldir Blanc impulsionam outro momento importante na carreira de Elis,num período assustador da história política brasileira, a ditadura militar. "Elis era o estômago do país inteiro", disse Henfil. O cartunista teceu intensa crítica, quando ela cantou nas Olimpíadas do Exército, a enterrando na charge do Cemitério dos Mortos Vivos, causando indignação à cantora, que sempre manteve uma postura política confiável. Como se fosse acerto de contas, retratou-se: Betinho, aquele invocado na canção, estava de volta pela brecha da abertura política; eles reataram a amizade e puderam pensar uma porção de coisas juntos... Mas os anos se encurtaram, e Elis ainda gravou dois discos em1980: Elis, com composições de Guilherme Arantes e os Borges, mais o álbum duplo, com a íntegra do show Saudade do Brasil; onde ela canta o Brasil com suas cores e que dá saudade... O repertório para o novo disco de 1982 estava pronto; gravaria Nos Bailes da Vida, de Milton Nascimento, por quem ela tinha verdadeira admiração: "Se Deus cantasse, cantaria com a voz de Milton", acrescentou. É um pedaço de chão do Brasil que se desintegrou... Bye, bye, bye Brasil!
domingo, 8 de agosto de 2010
Construção
Fotografias Célia Marisa; texto Salma Tannus. Livraria Kosmos Editora,SP/1985
a Clara Lenira, Sânia e Lúcia Barbosa
A trajetória musical de Elis Regina foi como cavar alicerce e levantar paredes: tijolos, pedras, mosaicos; que vão sendo cimentados, encaliçados com suor e lágrima. Uma vida maranhada como se fosse construção: ripas, caibros, vigas, pregos batidos e o esqueleto de ferro vestido pela carne de concreto... E o resultado é a solidez da invenção; essa torre erguida à posteridade.
Cantou às gargalhadas, disse tudo no Jogo da Verdade; bebeu vinho e chorou como se fosse náufrago; virou o disco como se ouvisse música, bateu a porta e fugiu pela vidraça do edifício: "E flutuou no ar como se fosse um pássaro..."
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