quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Esse tal João
 O crescimento da obra  de Elis Regina  é visível, a partir das composições de João Bosco/Aldir Blanc, desde o início dos anos 70, o que faz a cantora desvencilhar-se do repertório que conduziu desde O Fino da Bossa, para enveredar na crítica sardônica, a exemplo de O Mestre-sala dos Mares e Caça à Raposa, gravadas no LP Elis/1974.  Depois Elis teve um encontro inesperado com o cearense Antonio Carlos Belchior, que a procurou com uma letra de música, e a artista sentiu a necessidade de se renovar; como enfatiza o jornalista Walter Galvão: "o projeto filosófico incorporou-se a sua obra", dando uma nova proposta ao seu trabalho: "Ele é o filósofo do nosso tempo", declarou a cantora. E até hoje é a mais tocada nas rádios; um texto que não se dissolve. A música O Bêbado e a Equilibrista, sucesso absoluto em Essa Mulher/1979, novamente, João Bosco/Aldir Blanc impulsionam outro momento importante na carreira de Elis,num período assustador da história política brasileira, a ditadura militar. "Elis era o estômago do país inteiro", disse Henfil.  O  cartunista teceu intensa crítica, quando ela cantou nas Olimpíadas do Exército, a enterrando na charge do Cemitério dos Mortos Vivos, causando indignação à cantora, que sempre manteve uma postura política confiável. Como se fosse acerto de contas, retratou-se: Betinho, aquele invocado na canção, estava de volta pela brecha da abertura política; eles reataram a amizade e puderam pensar uma porção de coisas juntos...  Mas os anos se encurtaram, e Elis ainda gravou dois discos em1980: Elis, com composições de Guilherme Arantes e os Borges, mais o álbum duplo, com a íntegra do show Saudade do Brasil;  onde ela canta o Brasil  com suas cores e que dá saudade...  O repertório para o novo disco de 1982 estava pronto; gravaria Nos Bailes da Vida, de Milton Nascimento, por quem ela tinha verdadeira admiração: "Se Deus cantasse, cantaria com a voz de Milton", acrescentou. É um pedaço de chão do Brasil que se desintegrou... Bye, bye, bye Brasil!

domingo, 8 de agosto de 2010


Construção
Fotografias Célia Marisa; texto Salma Tannus. Livraria Kosmos Editora,SP/1985

a Clara Lenira, Sânia e Lúcia Barbosa

A trajetória musical de Elis Regina foi como cavar alicerce e levantar paredes: tijolos, pedras, mosaicos; que vão sendo cimentados, encaliçados  com suor e lágrima. Uma vida  maranhada como se fosse construção: ripas, caibros, vigas, pregos batidos e o esqueleto de ferro vestido pela carne de concreto... E o resultado é a solidez da invenção; essa torre erguida à posteridade.
Cantou às gargalhadas,  disse tudo no Jogo da Verdade; bebeu vinho  e chorou como se fosse náufrago; virou o disco como  se ouvisse música, bateu a porta e fugiu pela vidraça do edifício: "E flutuou no ar como se fosse um pássaro..." 
  

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Elis em Paris
htt/j.sarsano.com.br / Boulevard de Capucines
Elis Regina deu de cara com a exigência da plateia francesa. E O Bossa Jazz Trio estava lá, na estreia de sua temporada no Teatro Olympia de Paris. Elis em Paris, o compacto, cresceu com A noite do Meu Bem (D. Duran), e a canção ficou ainda mais bela com sua interpretação traduzida: La Nuit de M'onamour. A imagem acima, vem da apresentação de Elis na TV Estatal francesa. Tem mais samba: o grupo já tinha acompanhado a cantora nos discos Dois na Bossa 2, com Jair Rodrigues, e Elis /1966. O ex-baterista José Roberto Sarsano fala dessa junção e nos apresenta o fortalecimento artístico de Elis Regina nos palcos franceses. Lançou o livro Boulevard des Capucines, e tem um trabalho bastante enriquecedor em  blog do mesmo tema, onde o leitor tem acesso a vídeos, depoimentos, ensaios, imagens e palestras. 
Em 1968, Elis apresentou-se duas vezes no Teatro Olympia, respirando o glamour parisiense: palco de celebridades como Yves Montand, Charles Aznavour e a maior cantora da França, Edith Piaf. 

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Elis em retrospectiva

Elis Regina Carvalho Costa, série Grandes Nomes, TV Globo
1.
Eu estava no Recife, no bairro de Casa Forte: essa foi a imagem mais destacada no programa Retrospetiva 1982. No primeiro dia do ano de 1983, o disco Trem Azul me foi apresentado por Mariana Arraes, filha do ex-governador Miguel Arraes (in memoriam): era uma reunião de poucos amigos, rememorando  a noite de revéillon. Todos queriam que eu ouvisse, repetidas vezes.  "Agora o braço não é mais o braço erguido num grito de gol; agora o braço é um  traço, uma linha, um rastro espelhado e brilhante... Como uma estrela. Agora eu sou uma estrela..." É, os braços de Hélices não pedem mais vento!
2.
Quando foi lançado o DVD Elis Regina Carvalho Costa, com a íntegra do show exibido pela TV Globo / 1980, houve uma intensa procura. Indiquei-o a muitos que jamais conheciam aquele trabalho, antes  lançado em fita VHS, também pela Globo, e mais dois vídeos apresentados por Marília Gabriela e Irene Ravache. Houve grandes abalos no ano de 1982, abrindo crateras na memória: as mortes de Elis Regina e Adoniram Barbosa, poeta do Bexiga, amigo e parceiro da cantora; além de Márcia de Windsor. No âmbito internacional, ícones do cinema, como a atriz-princesa Grace Kelly e Romy Schineider... O show, dirigido por Daniel Filho,  ficou marcado pela interpretação em Atrás da Porta, de Chico Buarque: "Quando Olhaste bem nos olhos meus / E o teu olhar era de Adeus / Juro que não acreditei..." Gravada em 1972, a música não maldizia o amor, quando César e Elis  juntaram piano, voz, vidas. Mas, no palco-picaceiro,  por ironia do destino, Atrás da Porta era um recado dito ao pé da letra, arrancado de si; desmoronando parte do que fora feito em quase uma década. "E me vingar a qualquer preço / Te adorando pelo avesso / P'ra mostrar que inda sou tua..." As marcas de César Mariano estão muito bem impressas à carreira de Elis, que homenageia o músico convidando-o à segunda parte do show.  
3.
Elis pensa nos amigos de pandeiro, batucada de velhos carnavais. Escuta o canto dos riachos que descem a serra da Cantareira, inundando as hortas: os filhos cruzam a correnteza e colhem os frutos da canção Aos Nossos Filhos, de Ivan Lins. Qualquer disco relançado vende muito, porque Elis continua cantando melhor.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

              Elis in Montreux                                     

Imagem: disco Elis em Montreux


Elis in Montreux, o disco, não teria amornado a fervura da carreira de Elis Regina, se tivesse seguido a normalidade do projeto musical que se pensava, à época. Mas houve uma severa intervenção da cantora: insatisfeita com sua performance na noite suíça/brasileira, decidiu que  o show fosse um gélido acontecimento, ausentando a possibilidade de transformá-lo em disco. André Midani arquivou os registros. No entanto, a fatalidade de sua morte se mistura à revelia, e por ser póstumo, gera um justo motivo e nenhum remorso... Diante disso a publicação da obra aconteceu, e ainda  se ouvem as ovações. Elis  temia em não agradar o mundo afora, mas o que foi lançado em 1982,  é a prova que contraria essa decisão.


  

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Elis, Elis, Elis!
                                      DVD Trama, série Grandes Nomes


Elis Regina Carvalho Costa, nasceu em Porto Alegre (RS).  Nesse início de ano ouve-se falar mais dessa mulher, que  em 19/01/1982, subitamente, nos deixou.
A obra da artista, no entanto, é seu maior legado e parâmetro para muitas discussões. Elis não era uma cantora tipicamente comercial, aquela que canta qualquer coisa... Comprometida com as questões sociais do seu país, e consequentemente com a universalidade da problemática das pessoas, o repertório tinha que ser objeto de luta.  Contudo, seu trabalho, sendo aceito pela qualidade, que se venda muito, até porquê  faz-se com todo produto fabricado. Melhor é tê-la como instrumento de pesquisa, distanciando-a do saudosismo que a envolve, causado pela comoção nacional, que talvez, gradativamente, a consuma.  No entanto, os registros póstumos acrescentados à obra da cantora, têm que ser encarados como  objeto cultural, muito pouco de tietagem. Esses engajamentos e sua independência musical  são componentes, que somados à voz marcante, fascina a todos: “Amo a música, acredito que nem tudo está perdido, creio no ser humano e na renovação do planeta”, declarou.
Essa Mulher, o disco, completou 30 anos em julho de 2009, que além da música "O Bêbado e a Equilibrista" (João Bosco e Aldir Blanc), batendo de frente com o momento político vivido em 1979; valorizou Cartola, apresentou Tunai e Sérgio Natureza e o histórico dueto de Elis & Cauby Peixoto: “Estava indo a uma entrevista, quando ele cruzou em minha frente: é esse…”, disse ao Pasquim (1979). O “Hino da Anistia” reivindicava a volta do irmão do Henfil  e a morte do jornalista Vladimir Herzog, contextualizando as mazelas da repressão militar. Além do luto que as vestia, mães-Marias tinham também corações torturados. Ouviam-se os gritos roucos ecoando dos porões;  sangue escorria de fecundas idéias mutiladas.
Elis, em 1979, participou do 13º Festival de Jazz de Montreux: luzes cruzam a “Noite Brasileira” e as ovações abalam o Cassino de Montreux. O Bruxo do jazz ordena ao piano, mas não intimida a Pimentinha. O show passara por algumas oscilações vocais, mas ela volta ao palco menos introspectiva, depois de “Mancada”, “Faca Amolada” e “Rebento(u)”. Despira-se do longo vermelho, busto roxo-bispo e da orquídea azul-lilás do figurino. Vozes a chamam muitas vezes: “Elis, Elis, Elis!..."  Essas e outras imposições a fazem ressurgir em cena. Os olhos nos olhos travam duelo na noite: ela atende às notas complicadíssimas de Hermeto e mantém-se indomável, invencível, cantando as canções como se cada verso se avessasse. A plateia, insistentemente, não se cansa... E, aos poucos, desvencilha-se dos aplausos que pesadamente a veste.
Um samba no Bexiga
 
Elis convidou Adoniran para um samba no Bexiga. Conversando no Bar, eles tomam cerveja, e juntos cantam Iracema e Saudosa Maloca. O compositor rememorou outros sucessos já vistos no  Fino da Bossa: "Um dia nós fumo um samba no Bexiga, na rua Major, na casa do Nicolá. À meia noite o'clock teve a baita de uma briga: era só pizza que avoava...", Adoniram faz todo mundo rir; depois sai com  Elis, pelas ruas do bairro, até a chegada simulada à porta  de uma discoteca, onde Rita Lee canta "Jardins da Babilônia"; enquanto que o cantor se recusa a entrar, averso ao ritmo: "Não entro nem com caaa...misa de força". As imagens são do DVD Doce Pimenta, Trama.