sábado, 8 de janeiro de 2011

Elis Regina - Alô Alô Marciano - Grandes Nomes

Expo/Elis

Notícia: em março deste ano, mês que Elis faria aniversário e completaria 66 anos de idade; depois de passar pelo SESC, em João Pessoa-PB, Natal-RN vai sediar a Exposição "Francis rememora Elis Regina", quando o poeta apresentará seu acervo, avaliado como o mais completo do nordeste.  Tributo a Elis encerra seu livro entitulado Imagens Eternas, onde lê-se uma reportagem em tom poético. A mostra enfatiza os 30 anos de "Saudade do Brasil, espetáculo que estreou no Canecão-Rio, em 1980 e o  lançamento do álbum duplo; trabalho que marcou, profundamente, a carreira da artista. Saudade no Brasil, parafraseia o poeta: "Elis sentia saudade do que estava  presente, a  ser conquistado, época com fortes resquícios de ditadura. Além da valoração a costumes e épocas, o show respirava brasilidade: cenário verde-amarelo de bananeira, choro-repertó-rio que em tudo delata. 'Lembro assim com saudade, lembro por acreditar, se muito vale o já feito, mais vale o que será... Quando o  cansaço era rio...' Ainda em 1980, a TV Globo exibiu a série Grandes Nomes, que caracterizava uma extensão do que fora visto no Canecão. Saudad'elis!' ". Mas, em 2011, também comemora-se 30 anos do show Trem Azul,  o último da carreira da cantora, que morreria no início de 1982. Contudo, a expo/Elis trará à tona a trajetória da maior cantora da MPB.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

"O que foi feito da vida"...


 
Abre-se a cortina de chita, Elis desce a escada, equilibrando-se, e pisa no picadeiro... "Acho que agora tá, quase no ponto tá ..." 
E como a vida de Elis sempre esteve marcada por profecia ou prefiguração, depois das lágrimas avassaladoras de Atrás da Porta, é hora de um recado aos filhos: "Quando colherem os frutos, façam a festa por mim..."

 
Na segunda parte do show da série Grandes Nomes, é quando Elis convida César Mariano ao palco. (Homen)ageado pela presença marcante em sua vida, o músico se rende às  brincadeiras da artista, que sugere "Modinha"(Tom Jobim), depois inventa um blue em Rebento (Gil); Aquarela do Brasil (Ary Barroso) e O que foi De Vera (Milton). Os bailarinos usam cores vivas, brasileiras; entoando um canto tribal. No final da apresentação ela arrasta todo mundo com Redescobrir (Gonzaguinha). Na inebriada  plateia  estavam,  à vista, os atores Felipe Camargo e Maria Cláudia. Por fim, no grande círculo que se formou com a "brincadeira de roda", Elis abraça o diretor Daniel Filho, que veste a   polêmica camiseta proibida, com o nome de Elis Regina, ao invés de Ordem e Progresso: slogan pra enfurecer até o censor mais complacente. O show é encerrado com um trecho da antológica Fascinação.



Imagens: DVD Trama, serie Grandes Nomes

domingo, 28 de novembro de 2010

Aquele bolero

Cauby estava cantando: "Conceição eu me lembro muito bem...", música que não pode deixar de ser lembrada em seus shows. Descia a escada ainda cantarolando a canção. Alguém disse-lhe, baixinho, qualquer coisa, e ele veio em minha direção, já no corredor que o levaria a ver a lua deitada na Lagoa. E eu não podia perder tempo com galanteios de tiete, falei logo de sua gravação com Elis, no disco Essa Mulher / 1979.  Ele estava onomatopaico, pôs o braço no meu ombro: "hum, um, um, um... lará, laiá, laiá... turu, ru, ru, ru... liri, ri, ri,, ri, ri..." E  lembrou-se da letra do bolero  amargo, envenenado, pagã... Discretamente começamos a cantar/ol(h)ar: "Você me deixou como o fim da manhã / E em mim começou essa angústia, esse afã / Você me plantou a paixão imortal e mal sã / Que  se enraizou e será meu maldito final amanhã... / É a seta do arco da noite /Sangrando-me agora..." Elis já tinha bateado algumas pedras no garimpo do pensamento, e muitas desceram na correnteza da seleção; sobrou a voz preciosa de Cauby, prontamente cedido por sua gravadora. O cantor entrou na Van, nevoada pelo "arco da madrugada",  e eu pisava na grama pantanosa da borda  da Lagoa, com vontade de chorar, quase louco, já de manhã.

imagem: elisreginapimentinha.zip.net

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Efígie


Elis voltou a Porto Alegre:
efígie no meio da praça
com um sorriso de cobre.




quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Bobo da corte

Elifas Andreatto
O que dissera, hoje, por verdade, amanhã seria contradição. Arrumava os compartimentos da casa, mas desconsertava-se na vida, disposta a não olhar para estragos. Havia um anjo do mal que a induzia a vingar-se, a não dá o braço a torcer, a contracenar com o inimigo. Um anjo bondoso, em dia ameno, dava-lhe o gosto pela beleza e a liberdade de sair por aí. E, à noite, Deus arrumava o palco e emprestava-lhe a voz para que ela reinasse, soberana. E dizia-se injustiçada, guardava ressentimento de épocas difíceis e competitivas, mas atropelava tudo com a força visceral do seu canto: parecia carregar o  peso de uma grande misssão. "Divido tudo, mas o palco, esse eu não divido com ninguém", assegurava a artista. 
Podia-se até dizer que ela se defendia com palavras ríspidas e imediatas, esbanjando munições cotidianas, mas seu projeto musical ia além das trivialidades, dando origem a uma artista comprometida com a humanidade, daí a necessidade de prosseguir contestadora e valente. O palco era o único lugar seguro, onde ela armava a lona do circo e entrava no picadeiro: o bobo da corte não entrega os guizos...
Tinha um comportamento arrepiado, mas abria brechas à ternura; revelava-se fortemente engajada à realidade política brasileira do seu tempo; no entanto, sua obra é um legado de relevante contribuição cultural. Era mutante, raro rebento de vida: desabrochava-se para não ser casulo.
Ninguém ousava detê-la na velocidade voraz de imprimir sua história. Acreditou em seu talento e foi à luta: cantava em ritmo de atropelar. E assim seguiu indomável, aperfeiçoou o canto para  ser sua expressão verossímil.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Pra dizer adeus


Pra dizer Adeus, canção gravada no início da carreira de Elis, prefigura o que vimos em Trem azul, quando ela cantou Se eu quiser falar com Deus. A primeira canção versava sob a perspectiva do amor;  a segunda, não necessariamente, havia um traço de desprendimento à existencialidade,  acentuado pelo texto recitado na abertura do show; em meio  a aplausos incessantes de seus seguidores, externava a possibilidade de ir-se, como se avistasse um poço de água mais doce, nas bordas de um planeta melhor.  As palavras proféticas e viscerais que cantava ou dizia, vestiam-se de uma dramaticidade transcendente: queria  a luz apagada, gritava pela solidão,  rastejava-se, desnudava corpo e alma: "Eu tenho que dizer adeus, dar as costas, caminhar..." Os braços verticais são hélices ritmadas que riscam o ar, sem a voracidade de cata-vento, desencadeada em outras pelejas e sedes. "Tenho que subir aos céus sem cordas pra segurar..."
Esse trem que a levou não é aquele que  atropela  borboletas e barbeia girassóis na via-férrea: o  embuá solitário caminha triste, arrasta-se pelas veredas das serras; viandante de rosto sedento, mas nunca avista uma nascente. Mesmo entoando ladainha segue com andar de condenado, carregando seu cansaço, escravo de um fazer que não se finda...  E  chega o trem alado e a arrebata, deixando "um rastro espelhado e brilhante"; vai-se  inaugurando outras trilhas siderais, e ancora na estação azul, exílio de uma nova estrela.  

O primeiro show, no Beco das Garrafas-RJ, na noite em que ela insistia em ficar: "Um dia tudo isso vai ser meu".

Trem Azul, o último show

Imagens: Revista Manchete/1982